Ensaios

Poesia

terça-feira, 30 de julho de 2013

Fora Da Caverna



Foram anos de relapso convívio com seus semelhantes, uma truncada relação que mais parecia na verdade uma medição de forças, para estabelecer quem poderia controlar as vontades das peças do tabuleiro, ou qual jogador da partida do viver teria posse dos dados para determinar o passo seguinte, calculado e friamente analisado. Outrora ficaria esboçando rascunhos de suas ideias e desejos sobre estes cotidianos nauseantes que nos espreitam por cada rua de nossos andares nada efusivos, já que o exercício de por a cabeça para fora da caverna necessitava de uma força de vontade descomunal na maioria das vezes, pois sair ao sabor do vento para continuar vendo mesquinhas futilidades e toscas personalidades causava-lhe um típico tédio mortalmente perigoso.

Parece que a vida lá fora para ele nada tinha de sedutora, já que em suas conclusões de afinada realidade pareciam ser sempre verdadeiras e retratavam a vida como ela é (embora seja claro sem os olhares é viés perversos e pervertidos do escritor Nelson Rodrigues, talvez por ele não ter dado as fuças com sua bonitinha ordinária ou alguma engraçadinha perdida pelas sarjetas).Nada parecia o comover a dar aquele passo para fora do casulo, não tinha a mínima motivação u objetivo para levantar-se e sair da zona de conforto previamente estabelecida de acordo com seus critérios e ideologias sobre a vida onde sua cabeça era um emaranhado de socialismo, fascismo, capitalismo, anarquismo, niilismo no universo total das palavras com final ismo se misturavam numa receita gastronômica volátil, temperando com pitadas irônicas seus densos amores.

Mas como bem se sabe casualidades e tantas outras frivolidades do destino ou mesmo do acaso, nos inserem em armadilhas humanas especificamente contraditórias, nos tornando marionetes ou obreiros de algum arquiteto do tempo e espaço que anda por ai se divertindo nas origens das coisas com suas criações, se alegrando ao ver o desenrolar do que suas criaturas fazem com a vida que lhes deu. Eis então que seu criador resolver se divertir as suas custas, nestas suas andanças dentro da caverna eis que vislumbra por um instante rápido, mas intenso, a figura lasciva de uma ninfa. Uma ninfa não destas que povoam o imaginário das lendas clássicas, mas uma destas modernas, um pouco tímida, mas de ar sonhador, com sua bolsa cheia de penduricalhos, um Iphone para escutar alguma subjetividade do The Doors e certa edição de Bolso do desbocado Bukowski.

Enfim a infantilidade gerada pelo amor que acomete todo macho masculino deste mundo patriarcal havia chegado aos cordéis da cidadela deste pobre vivente. O gajo de tanto evitar estas relações externas, fora pego nesta peça do arquiteto maroto que o forçou a finalmente alçar seu corpo para fora da caverna, fazendo uma engraçada relação com o mito da caverna a qual dizem as más línguas, Platão havia tecido e abordado em suas filosofias (más línguas, pois se bem sabe que historiadores e pensadores são meros fofoqueiros do passado). Pobre alma agora estava condenada a ser seduzido pela ninfa empedernida, um escravo das ideias e desejos da bela louca, se pessoas eram para ele completamente estranhas, imagine este infeliz apaixonado desde já por uma fã esquizofrênica de Lana Del Rey.

Pensando cá com meus botões de diversos tamanhos e gostos, a bem da verdade o gajo pode até se dar bem na situação ao qual esta se submetendo. Oras, porque não tentar moldar e convencer sua ninfa de melhorar a cabeça um pouco atribulada, encher de coisas um tanto quanto proveitosas. Menos Lana e mais Elis porque não? esta ai uma boa causa para nosso intrépido homem da caverna sair em busca, subverter os desígnios ao qual o jogo lhe tem dado, seguir ordens e regras de terceiros nunca foi algo que o comovesse, já que é sempre malignamente prazeroso pregar peças do que ser o pregado.

domingo, 28 de julho de 2013

O Raio da Sicília



Ele tinha se acomodado destes ardores febris de amores típicos da juventude, que nos arrebatam e botam abaixo, revirando os pensamentos e as emoções como um tornado que devasta a planície. Evitava sentir estes sentimentos peculiares, pois apesar destes serem únicos e especiais, quando acabava a reciprocidade tornava-se um fardo pesado a carregar, um incomodo latente que pulsava no tórax como se fosse um tumor de alguma enfermidade maligna, o deixando com fios de vida terminal, como se apenas no auge do sofrimento esperasse o fim para aliviar-se completamente da dor que o aplacava.

Tinha reservado o direito para si a partir das experiências passadas, de aquietar-se dentro do seu casulo, escondido na proteção da casca, sem um contato direto com o mundo. Gostava de estar ali, como uma espécie de tartaruga dentro da carapaça, defendendo-se dos males do mundo exterior que sempre vinham atormentar aqueles de excessiva lucidez e singular sensibilidade. Dentro de sua armadura pretendia ficar um bom tempo se recuperando e evitando os dissabores e prazeres venenosos da vida fora de seus domínios, infelizmente tinha chegado a uma conclusão que não era mais novidades para os sábios antigos, aqueles que sentem são os que sofrem, afinal das contas.

Mas o destino por fim adora fazer o seu jogo mais perverso com os mortais subjugados a seus desejos e vontades mais egoístas. Quis ele que o pobre mortal fosse novamente atingido pelo raio de um olhar mais uma vez, o raio do olhar das descendentes de Afrodite, tão intensos e profundos que ardem à alma de forma indescritível, consumindo-o em uma complexidade de sensações e o deixando em um estado de perplexidade emocional convulsiva. Segundo os habitantes da Ilha da Sicília, esta espécie de raio divino era o perigo que acompanha a humanidade desde sua criação por deus, uma dádiva ambígua, pois oferecia aos homens tanto a redenção quanto a destruição.

Não lhe restou alternativa a não ser buscar entender os motivos por ter sido fulminado pelo raio e suas possíveis consequências. Este não é como os anteriores (os raios a bem da verdade são raríssimos e por isso merecem atenção rígida e totalitária), possui um semblante doce, que o envolve num estado de leveza e bota em seu rosto um frouxo riso aparvalhado. Vai com a cabeça fervilhando, com o sono alterado graças à lembrança e saudade do olhar cabisbaixo, da timidez relapsa e de certa ingenuidade no falar sobre as coisas, além é claro da voz suave que repete o seu nome, que ecoa dentro de si como os sinos de um monastério antigo situado em alguma montanha distante da civilização.

Agora estava inquieto, finalmente alguém o tinha tirado da zona de conforto e o inserido novamente ao jogo dos afetos. Na verdade já estava muito tempo assentado na cômoda posição de evitar-se envolver em emoções de intensidade literal, pois mesmo sofrendo como Cristo na cruz nestas ocasiões, para ele nada mais lhe dava prazer e plenitude do que sentir as coisas de um modo completamente profundo e sublime, prostrar-se e admitir para si mesmo que existe algo com uma causa de forma e meios inexplicáveis para o intelecto humano. Um riso de satisfação maquiavélica e irônica percorreu sua face: voltara a amar novamente fulminado pelo raio.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Loucura Que Liberta




Nada parece ser por acaso, embora seja claro aquele louco ao quais todos julgavam, já foi alguém lúcido por demais e a bem da verdade foi essa lucidez que lhe causou a esquizofrenia. Era por saber e enxergar a realidade como ela realmente é de fato, a causa de todas suas angustias e desgostos, pois percebia todos os mínimos detalhes da frieza e indiferença com tudo o que fazia parte do seu mundo. Não aceitava essa situação, achava isso de um mortal desvio do bicho homem, e sendo um destes bichos, buscava modificar esta tacanha e estreita visão de mundo que seus iguais tinham sobre o ambiente que os cercavam.

O que o tornou um doido varrido foi por fim, a sua tentativa de buscar algum refugio das dores de parto da vida.  Sonhava constantemente com um abrigo para aliviar-se das enfermidades de seu sistema mundo, anestesiar com algo consistente sua rotina repetitiva e enjoativa de tantas ninharias e infortúnios que o acometia diariamente, doses diárias de incomodas verdades sobre si e seu circulo do viver. Chegou numa conclusão extremamente cruel para quem enxergava e tinha consciência da realidade, o privaram da forma de aliviar-se das chagas que o acometiam, retiraram do pobre moribundo o maior dos confortos do realismo bárbaro: não tinha a capacidade de ser amado por seus iguais.

Este remédio para as enfermidades lhe foi negado de cabo a cabo, com toques sutis de divertimento alheio com seu sofrimento. Nunca passou sequer perto de alcançar o topo da muralha que o separava dos afetos e vez ou outra alguém do lado oposto jogava alguma migalha apenas para torturá-lo com uma ínfima partícula de algo que jamais conseguiria realmente ter em mãos. Sentimentos recíprocos nunca surgidos lhe foram negado sempre, conhecer esta faceta prazerosa da vida era uma dádiva de seres que perto dele por terem este conforto sagrado, tornavam-se deuses, ou na maioria dos casos, demônios da tortura.

Foi definhando com toda esta indiferença ao qual estava submetido, oprimiram com uma repressão ditatorial qualquer necessidade de sentir que tinha, estando preso num palco onde era a diversão de uma plateia, num jogo dos afetos falsos, não os dele é verdade, mas seu emocional era o jogo mais apreciado pelos espectadores de sua desgraça. Virou nas mãos destes um escravo das vontades, uma fusão estritamente cômica e excêntrica de um palhaço com um macaco amestrado, gerador de risadas através de trapalhadas onde delas surgiam hematomas por bordoadas, risos típicos do humor negro dos sádicos.

Sua única saída foi ao fim a loucura. O que lhe restou foi ter que inserir a mente em uma dimensão paralela, tornando-se refugiado num mundo alternativo onde conseguiu escapar da realidade que estava submetido. Foi na loucura que conseguiu se libertar deste cárcere que tinha suas amarras bem apertadas sobre seu peito, lhe tirando quase todo o oxigênio, deixando aquele pouco resto apenas para mantê-lo com um fio de vida. Mas ali ele estava, com sua irmã de todas as horas, sua fraterna amiga que o dava alivio nos momentos mais negros, nada mais o deixava tranquilo que estar Louco.

sábado, 20 de julho de 2013

Sobre o Sentir




Já não há razão de comemoração ou glorificação de ideias sobre esta dimensão crua da realidade, descrita pelas luzes da ciência como o passo definitivo a idade da razão humana. A racionalidade, conduta imparcial e fria são citadas e reverenciadas como a solução para as aflições que atingem o caráter dos homens, sendo assim, obtêm-se um suposto controle opressor e totalitário sobre as emoções. Para muitos a burocratização das ações e realizações da humanidade é o passo final para a evolução do pensamento livrando-se das frivolidades das vontades do amor e do afloramento de sentimentos mais puros e singelos. Afinal, para os adeptos da mecanização do bicho homem, sentir algo metafisico não passa de uma distração desnecessária. Mas mal sabem que cometem o erro crasso de tentar eliminar algo que será imutável enquanto houver um único ser humano vagando pelo mundo.

Os que querem essa anestésica solução para um domínio completo dos afetos se iludem através de planilhas, projeções, cálculos, dados estatísticos analisados e frisados como sendo uma verdade absoluta e irrefutável. Tolos tecnocratas que tentam a todo custo medir e provar pela formula A+B que você irá premeditadamente tomar tal decisão apenas levando em conta ação e reação de meramente físicas e biológicas, excluindo totalmente destas suposições um tanto quanto contraditórias a variável que acompanha seus desígnios desde sua formação enquanto animal sociável e suscetível à empatia por seu semelhante: as emoções.

Os sentimentos nada mais são que todos os traços que envolvem todas as vontades e desejos dos pensamentos da vida humana. O afeto é um traço sentimentalista que molda o caráter peculiar a cada homem a partir do sentir individual, é inútil tentar mensurar e dar formato único a algo que será sempre diferente, mutável e em constante metamorfose que são as emoções, pois cada indivíduo tem a sua ideia e noção do que sente. De fato, a razão empírica de tudo que prezamos ao nos afetarmos a determinadas coisas é que ela é paradoxalmente irracional acima de tudo, pois seu principio consiste em ser algo espontâneo, partindo de um pressuposto de caos criativo, que emerge e toma conta dos nossos desejos mais sinceros e robustos.

Relações amorosas e de amizade, por exemplo, será sempre ao fim de todos os processos de vida, o objetivo primordial das aspirações humanas. A verdade que não suportamos a ideia de ficarmos desolados e entregues a solidão, abatidos por não ter alcançado a plenitude e o conforto de poder contar com a companhia e afetuosidade de seus iguais. Grande parte das perturbações que afligem o psicológico humano deriva da sensação que muitos têm de estarem imersos numa cápsula solitária, ficando presos nesta desconfortável posição forçada, sendo então arrebatados pelo que muitos chamam de o demônio do meio-dia: a depressão.

De Todas as formas disformes e das mais variadas intensidades, sentir é o que nos torna singulares enquanto a concepção como ser vivo. Sentir nada mais é que a noção diferenciada da busca por um norte na vida e o propulsor que rege cada ato humano nos mínimos detalhes, é a razão de afinal das contas, de buscar um sentido fazendo seu próprio rumo determinando o objetivo individual e a compreensão das suas próprias vontades. De modo consistente e sintomático, é o sentir que ira moldar toda nossa perspectiva e senso critico sobre tudo que nos cerca.

domingo, 14 de julho de 2013

Servo Liberto

Observava ao longe as coisas, embora é claro com certo ressentimento e saudosismo um tanto quanto melancólico. Ele queria entender os motivos de não poder reagir frente ao passado que o comprimia na parede de tal forma, que o aprisionava numa cela das emoções. Seu cárcere era peculiarmente confortável de certa maneira, pois conseguia aliviar-se nos sons que remetiam a face daquele ser que tanto o atormentava nos sonhos das noites enjauladas pelos amargos choros do remorso sobre uma culpa em que não achava os motivos, e isso o consumia aos poucos, exaurindo suas forças nesse questionamento espinhoso: onde errou afinal das contas? Por que cargas D’água não decifrava o enigma de fazer o papel de réu no processo do fim de um amor?

Bem da Verdade o que sentia era tão forte que tinha um formato um tanto quanto opressor e repressivo, seguindo vontades próprias envoltas numa implacável relação de forças desiguais: o mero servo, a monarca déspota esclarecida, e o estado em certa medida totalmente absoluto.  O servo, como a própria palavra sugere, apenas serve as vontades, sua vida estava ali para prestar os mais variados serviços emocionais. Estava submetido à ordem régia dos sentimentos e alienado na ignorância do que sentia, não percebia os malefícios de sua situação frágil e comprometedora, que ao menor estimulo que sua monarca dava se sentia o ser mais sortudo da face da terra ao receber as migalhas de sua tirana.

Já a governante estava confortavelmente assentada na sua posição de domínio, tranqüilizada na certeza de controlar como marionete seu súdito da forma como bem entendesse. Era seu brinquedo preferido acima de tudo, pois a diversão era garantida naquele ser que obedecia a qualquer mando e desmando seu, chegando a se surpreender com a dócil lealdade cega do seu plebeu ingênuo. Adorava essa sensação de poder total sobre a vida de outra pessoa, sentia- se praticamente um ser divino, a enviada de deus e seus desígnios para subjugar qualquer mortal a seus desejos como bem entendesse, e este servo em especial, já que o tolo a glorificava de modo único, numa singularidade peculiar que quase a arrebatou, chegando  pensar que o pobre vivente merecia um pouco mais por tal dedicação obstinada. Entretanto como era de se esperar, cansou-se do divertimento raso que ele lhe dava, e mandou o desafortunado servo ao exílio.

Pobre servo agora estava numa situação totalmente inglória destas. Sem pátria, sem terras, sem sonho, sem governo e desprovido da atenção do objeto de sua admiração e amor. Fora enviado para o limbo dos desolados por aquela em que creditava ser a razão do seu norte existencial, e agora sem ele estava sem um principio para qual continuar seguindo a lutar nesta morosa realidade. Ali estava desprovido de um objetivo, pois agora teria que pensar por si, e não obedecer a mandamentos de terceiros sendo que jamais teve essa sensação, tanto que não sabia designar o nome para tal e foi buscar a razão da sensação de estar num vácuo. E Foi por estes caminhos que entendeu o significado do vácuo: livre, liberto, estava no estado daquilo que chamavam como liberdade.


Neste momento pelo que ouço de relatos vindos do exterior, por outras terras assim descritas por viajantes oriundos da região onde o servo esta exilado, ele parece estar mudado e desperto, iluminado por idéias próprias e de sentido revolucionário. Dizem por ai que ele esta querendo insuflar as coisas, fazer arder e desmoronar o estado absoluto da monarca, implodir por completo o poder totalitário que ela tem e livrar o país totalmente da opressão e das vontades individualistas da déspota narcisista. A Meta deste ex-servo parece-me que ele mesmo traçou graças à liberdade que obteve: quer transformar a governante totalitária em igual na guerra de poder do amor.

domingo, 7 de julho de 2013

Acaso Dos Destrambelhados

Um simples acaso o levou a encontrar aquela criatura tão confusa e destrambelhada quanto ele. Por mais que tentasse disfarçar e dissimular o que sentia, quando estava frente à presença dela sofria uma metamorfose considerável, ficava perdido no tempo e espaço sem ter meios para colocar as coisas a luz da realidade, sentimento era tal que nem palavras ou gestos alcançariam a dimensão que queria dar aquilo. Ao final das contas tudo se misturava numa fórmula nada coerente de sentidos e contornos exatos, um sonhador que vive os sonhos de olhos abertos, o corpo presente no espaço, mas a ideia encontra-se numa dimensão própria, cheia dos detalhes intrínsecos e de riso espontâneo.

É diferente sempre com ela ao lado, é o que lhe traz um silencio singularmente pacifico e que lhe apetece o ego, acalma os nervos acolhendo-o no sossego que somente a plenitude de estar ali com ela em seus olhos trás. Quer aquilo para aplacar feridas pontuais, de experiências que mesmo estando naquele passado do pretérito mortalmente imperfeito, por vezes torna-se viva nas lembranças consumindo-o em prantos sobre falhas execráveis em inúmeros graus, forças e vontades. Neste processo de recomposição interna e externa, de fato parece ser ela a via por onde todas estas sombrias memórias irão perder-se ao vento, tornarem-se apenas brisas que somente  e sinta na face, e não em tormentas da alma.

Para tornar esta seu excêntrico amor recém-descoberto em pratica, precisa acima de tudo ter um calmo cuidado extremamente sensitivo. Está diante de uma rara oportunidade, e a ansiedade o toma conta cada vez que tenta achar um meio ou subterfúgio para conseguir finalmente a oportunidade concreta de revelar o conteúdo da sua caixa de Pandora. Seu interior é de tal forma denso, intenso e envolto num emaranhado de duvidas, que teme incomensuravelmente que isso possa assustar e afugentar ela de seu convívio, e novamente ficar isolado em sua capsula, exposto as mutilações da tortura do nada, e privado do sentir.

Sabe também dos cuidados que seu aconchego merece, pois conhece as atribulações que a alma desassossegada dela possui. Também quer diminuir o sofrimento de quem o acolheu e o escuta nas tolas maquinações de sua mente excêntrica, que vagueia perdendo-se em bobagens além do mundo das ideias. Como duas faces da mesma moeda ou o símbolo do Yin-Yang, ele bem sabe o quanto ela é forte em certos momentos e em outros vorazmente frágeis, lhe arrancando suspiros e um sentimento de evolver-lhe num abraço reconfortante, daqueles nascidos para o bem-querer, que nos fortalecem firmemente para suportar os destemperos de um desenrolar cotidiano caótico.


Tudo ficou claro em sua mente nada convencional, nesta hora nada gloriosa já esta sem a disposição de suportar mais uma oportunidade escancarada de voltar do limbo. Precisa ser paciente é verdade, mas não ao custo de ficar numa passividade de não agir no momento, já passou da hora de ao menos tentar acertar por excesso e encerrar os erros por omissão. Mesmo sendo alguém que adora se divertir com ao que muitos consideram respeitoso ou moralmente certo, até ele mesmo vai ter que lidar com seus pudores e reciclar tudo aquilo que preza, guardar por hora a armadura da cretinice para descansar os pensamentos nas malhas da serenidade.