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Crônicas de George

Poesia

domingo, 28 de julho de 2013

O Raio da Sicília



Ele tinha se acomodado destes ardores febris de amores típicos da juventude, que nos arrebatam e botam abaixo, revirando os pensamentos e as emoções como um tornado que devasta a planície. Evitava sentir estes sentimentos peculiares, pois apesar destes serem únicos e especiais, quando acabava a reciprocidade tornava-se um fardo pesado a carregar, um incomodo latente que pulsava no tórax como se fosse um tumor de alguma enfermidade maligna, o deixando com fios de vida terminal, como se apenas no auge do sofrimento esperasse o fim para aliviar-se completamente da dor que o aplacava.

Tinha reservado o direito para si a partir das experiências passadas, de aquietar-se dentro do seu casulo, escondido na proteção da casca, sem um contato direto com o mundo. Gostava de estar ali, como uma espécie de tartaruga dentro da carapaça, defendendo-se dos males do mundo exterior que sempre vinham atormentar aqueles de excessiva lucidez e singular sensibilidade. Dentro de sua armadura pretendia ficar um bom tempo se recuperando e evitando os dissabores e prazeres venenosos da vida fora de seus domínios, infelizmente tinha chegado a uma conclusão que não era mais novidades para os sábios antigos, aqueles que sentem são os que sofrem, afinal das contas.

Mas o destino por fim adora fazer o seu jogo mais perverso com os mortais subjugados a seus desejos e vontades mais egoístas. Quis ele que o pobre mortal fosse novamente atingido pelo raio de um olhar mais uma vez, o raio do olhar das descendentes de Afrodite, tão intensos e profundos que ardem à alma de forma indescritível, consumindo-o em uma complexidade de sensações e o deixando em um estado de perplexidade emocional convulsiva. Segundo os habitantes da Ilha da Sicília, esta espécie de raio divino era o perigo que acompanha a humanidade desde sua criação por deus, uma dádiva ambígua, pois oferecia aos homens tanto a redenção quanto a destruição.

Não lhe restou alternativa a não ser buscar entender os motivos por ter sido fulminado pelo raio e suas possíveis consequências. Este não é como os anteriores (os raios a bem da verdade são raríssimos e por isso merecem atenção rígida e totalitária), possui um semblante doce, que o envolve num estado de leveza e bota em seu rosto um frouxo riso aparvalhado. Vai com a cabeça fervilhando, com o sono alterado graças à lembrança e saudade do olhar cabisbaixo, da timidez relapsa e de certa ingenuidade no falar sobre as coisas, além é claro da voz suave que repete o seu nome, que ecoa dentro de si como os sinos de um monastério antigo situado em alguma montanha distante da civilização.

Agora estava inquieto, finalmente alguém o tinha tirado da zona de conforto e o inserido novamente ao jogo dos afetos. Na verdade já estava muito tempo assentado na cômoda posição de evitar-se envolver em emoções de intensidade literal, pois mesmo sofrendo como Cristo na cruz nestas ocasiões, para ele nada mais lhe dava prazer e plenitude do que sentir as coisas de um modo completamente profundo e sublime, prostrar-se e admitir para si mesmo que existe algo com uma causa de forma e meios inexplicáveis para o intelecto humano. Um riso de satisfação maquiavélica e irônica percorreu sua face: voltara a amar novamente fulminado pelo raio.

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