Ensaios

Poesia

domingo, 12 de maio de 2013

Concreto Incerto



Recusava a negar as oportunidades perdidas, amargava um incólume remorso por deixar o cavalo acabar passando encilhado e ter deixado de montar-se e partido, para onde não se sabia, mas provavelmente a um local muito mais aprazível e edificante do que o atual. Abusou no passado de tolas brincadeiras malfeitas, em horas por ventura desnecessárias, e como sal em uma chaga aberta ardendo feito brasa, exalando um cheiro forte de um velho chorume lamentoso, ao passo em que perdia sabe-se lá onde, outrora as virtudes das índoles aprazíveis. Ele por fim acabou por construir sua própria sentença perpétua, aprisionado em seu calabouço sem fim.

Absorvia tudo que passava pelos neurônios, a conta-gotas ia tentando reverter as nuances dos momentos ditos e feitos, que de modo imperfeito, determinavam a situação atual ao qual o atrelava a profusas buscas pelo que nem ele sabia ao certo. Buscava encontrar ou consertar, absorto na crença de ter errado em certo ponto do caminho. Revirava-se nos lençóis da cama, em sonos irrequietos, sonhando com possíveis acontecimentos se remoendo, ter dado mais atenção aos breves detalhes, não ter deixado esvaírem-se ao vento outras concepções, por vezes acordava naquele tupor descontrolado, clamando por perdão ao desconhecido.

Nos traços até então desenhados, os rasgos do infortúnio que estava acometido aparentemente não lhe deixavam descansar as atenções, nem por instantes as ideias lhe arrefeciam a ânsia de estar enclausurado numa espécie de prisão das metas almejadas, estando rodeado por vultos que outrora eram seus sonhos e ideias, que agora jaziam acorrentados na parede pedindo clemência.  Tudo isso girava em torno de ter-se omitido na hora mais preciosa, em como o destino fora de praxe implacável, e, no entanto ainda ressoava para o tempo essa sensação de ser um criminoso ceifador da boa vontade o perseguia feito matilha de lobos no encalço da presa.

Tal ponto era o desespero em que se acometeu, que suas vontades mundanas humanas já tinham perdido o sentido, pequenos prazeres transformados em meras distrações indolor ou intransigentes, vagas atividades sem nenhuma utilidade especifica, tolas amenidades perfumadas, disfarçando o imenso vácuo que eram. O bem da verdade foi aos poucos retomando as rédeas destes entraves, cansou-se de relativizar estes incômodos de sempre, ficar eternamente sentado em cima deste formigueiro lamurioso nada acrescentaria ao seu modus operandi, tomou a decisão de sair rabiscando por outros muros recém-decorados, ainda cheirando a fresca tinta da imaturidade.

Entorpecido pela típica coragem que acomete os idealistas, foi vagueando em outras esferas de ações, verbalizando e proseando sobre formas e contornos dos próprios sonhos. A principio poderia pensar-se que novamente estaria caindo no vicio ingênuo do excesso de fé ou confiança nas mudanças provocadas nas novas ideias florescidas em seus pensamentos por alto, entretanto era exatamente esse florescimento a causa da súbita melhora dos ânimos e da ressureição da criatividade pelos atos sinceros. Nas suas causas ou motivos, em divagações profundas ou rasas, podia finalmente concluir que uma única certeza teria, tudo era concretamente incerto.

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