Ensaios

Poesia

sábado, 2 de novembro de 2013

Duas faces da mesma tonalidade



 Não tenho mais no e em que acreditar. Olho ao redor e nada vejo de diferente ou cativante, apenas a velha e tradicional forma de se tentar traduzir ideias tortas sobre uma dimensão surreal, fora de um contexto material ou até espiritual. Desacreditei em qualquer fé ou crença existente na atualidade num ideal maior que tantos ingênuos almejam, alienados em traços de uma rotina histórica repetida ao longo de diversas eras. Até os invejo por ainda se apegarem a algo de forma tão apaixonada e intensa, pois perdi totalmente essa capacidade nos últimos tempos de buscar numa suposição um sentido ou motivação de vida, mesmo que isto acabe derivando numa ignorância e cegueira para as verdadeiras problemáticas de nosso meio, ainda sim há certas coisas que parecem ser um fardo pesado por demais para carregar ao descobrirmos o que realmente a por trás de um pensamento ou ato.

 Sem esta retórica de tédio e convencimento pelo cansaço da repetição dos mesmos termos, macaquices de ideologia, mitologia, filosofia viram cacofonia de piadas e todos os ismos tornam-se instrumentos de tortura seletiva. Quebrar paradigmas, reinventar um sistema novo de vida a partir de determinadas ideias já dadas ou se manter preso a pensamentos doentios é a forma que estamos sendo educados desde sempre, não existindo conciliação ou essa sonhadora frase “coexistência pacifica”, somos canalhas se banqueteando por cima da carne seca enquanto estamos no papel dominante, divertindo-se à custa da parte baixa que se alimenta de nossos despojos espoliados dos mesmos. E quando os papéis se invertem, é o mesmo processo individualista de se fazer como mandante através do medo e da força, e agimos desta forma porque somos ensinados que isto é o certo a se fazer, pois não sendo você a atuar neste papel, alguém tomara seu lugar.

 O vermelho e o azul são duas faces da mesma tonalidade incolor, instrumentos de convencimento de nossos afetos, que no final das contas apenas servem para controle de nossas paixões servindo de ferramentas para causas obscuras de terceiros, visando à consumação extrema de um orgasmo prazeroso de ego desmedido e desprovido de qualquer empatia sobre o semelhante. Com a licença poética tomada, aqueles que usam de discursos enfeitados, maquiados com belas metas e promessas de mundo perfeito, são duas opções de personalidades: ou um crente cego pela ignorância na ausência de percepção da realidade ou é o perfeito retrato do narcisista consciente de como a roda dos processos sistemáticos gira, e como filho naturalmente desprovido e desconhecedor de um amor de mãe tal qual um filhote de chocadeira, usa a noção que tem sobre a existência para levar vantagem sobre a ignorância coletiva e assim saciar sua volúpia infinita pelo poder.

 Pode parecer que estou sendo dramaticamente pessimista em relação às causas e lutas de alguns, mas percebam o que os cerca e o meio viciado que está se adentrando. Isto não é uma questão de embate entre o bem e o mal ou deuses e demônios, é somente a tratativa de um vislumbre sobre que qualquer ser que se submeta ao sistema adotado desde os primórdios, tende a se corromper, pois na premissa deste sistema e sua base de perpetuação é de fato a abolição da empatia e de senso coletivo visando o bem comum. Deixo claro aqui que não tenho nenhuma ideia ou teoria para resolver ou mudar o que nos deram e forçaram a engolir como modo de existência, no entanto o que se está ai tem a necessidade de se acabar na perdição e completa desconstrução, barrar as engrenagens de abusos do poder que agem há milênios e inovar com alguma criatividade. Quem sabe no fundo seja esta minha crença, desconstruir velho falido e dar forma ao novo criativo.

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