Ensaios

Poesia

domingo, 4 de agosto de 2013

Insuficientabilidade



Insuficiência, do verbo insuficiente. Segundo o dicionário o verbo se define por Incompetente, Incapaz, função inadequada de um órgão ou sistema, a falta de algo, pouco. Pois bem, é o que de fato se passa pela cabeça nestes tempos em que se cobra muito, pede-se demais e não há mínima reciprocidade para aplacar necessidades humanas para se viver de modo decente e suficiente. Somos cobrados por resultados e a sermos algo que por vezes não queremos e nem podemos ser, determinando-nos a seguir por um caminho a força, presos em grilhões por uma mão invisível que condiciona a vida de acordo com os interesses daquilo que por ventura seja a melhor moeda de troca para terceiros.

Então este personagem ao qual relato aqui assume este papel da incapacidade da sua insuficientabilidade dos seus toscos atos. Retraído nestas sarjetas da apreensão existencial, nada via em si com uma boa perspectiva ou com capacidade de gerar ou criar algo em que se tivesse proveito, teme até mesmo fazer figuração de paisagem, pois sua posição e composição pensa ele, tende a desfigurar e obstruir a beleza de qualquer quadro. Sua presença na vida dos que se fazem presente em seu ambiente é um fardo, peso morto, credita sua aura no viver destes como um desenho de Picasso num quadro de Van Gogh, desproporcional, incomodativo, tenebroso e grotescamente fora do contexto.

A capacidade para cativar alguém ou gerar o mais humilde dos amores é algo desconhecido a seu ser, tal capacidade (se é que realmente um dia teve) desconhece ou lhe foi negada por motivos que apenas a força que rege o universo saiba explicar nos mínimos e minuciosos detalhes. É limitado a cada ação pensada, pois no fim não age, pois piamente crê que jamais conseguira o que tem como vontade de suas maquinações e emoções peculiares as taxando como as mais onipotentes e magnificas das causas perdidas. Chega a ser uma ironia cruel consigo mesmo, ele que tanto preza por manter-se sempre disposto a batalhar pelas ideias, já as considera como derrotadas antes mesmo destas irem às claras e serem expostas aos seus receptores.

Vai se perdendo nos próprios passos bem das contas, já que ao que parece a ele todos os caminhos oferecidos tornam-se labirintos que o encerram numa prisão cheia de trilhas mas sem uma saída. Assim como o Minotauro de Creta da lenda grega, é apenas um monstro escondido do resto dos homens esperando o dia que um herói mequetrefe e sem sal o aborde e abra seu ventre a fio de espada, para sair do confronto vencendo um desgraçado previamente derrotado pela ocasião a ele destinada. É nisso que credita ser seu fim, apenas a escada da glória para mais um passante da multidão em busca de se vangloriar sobre a carne seca, ou satisfazer seu ego perante a destruição do semelhante agonizando sobre o tudo e o nada.

Consumindo as próprias prevaricações e remoendo aguas passadas que contraditoriamente movem seus moinhos de vento, vai se entregando a definhar absorvido no remorso. Nada mais pede a não ser uma finalidade digna para suas abstratas capacidades enquanto sentimentalista ingênuo. Seu idealismo agora já é trágico e traça paralelos entre o amargor de ter deixado o cavalo passar encilhado e ao mesmo tempo ter usado munição demais em determinados empreendimentos de sua vontade. Ao final do dia já está extenuado por tantas lamentosas observações, por fim retira sua máscara de personagem risonho para finalmente descansar sua face atribulada ao vento, e após tantos dissabores da rotina terminal, encerra-se dentro de seu reduto a salvo dos outros.

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