Ensaios

Poesia

terça-feira, 19 de março de 2013

Esvaindo



Tudo se esvai em pedaços de lembranças, tal qual é os traços da sua face, que me vem à mente quando fecho meus olhos cansados. Quando minha vista se encerra no mundo do sono, acabo por vislumbrar aquele olhar profundo, analisador, intenso, e ele vai ardendo quimericamente, reavivando alegrias ocultas sobre a minha carapaça de guerra, que embora enferrujada e gasta, foi meu abrigo contra os destemperos clássicos deste mundo de bestas humanas e humanas bestas.

Porque seu rosto é presença constante em meus sonhos é uma questão que me aflige feito um ferimento que gangrena frente à vista de todos. Vai se tornando a sádica rotina de alguém perdido em meio a causas perdidas e desgostos, inserido em pontos de convergência com inúmeras perguntas de uma única resposta e sentimento. A negação da afirmação destes parece ser uma boa invenção para estancar a sangria da gangrena necrosada que corrói o espirito, tornando os dias mais inquietos, num estranho silencio de desassossego memorável e acachapante.

Em meio a respostas evidentes, a consistência do fato de ter-te povoando a minha nada estável cabeça forma um emaranhado de frustrações dos objetivos mais claros que sempre tive, todas as metas ruíram na minha frente, tive a pior das castrações humanas, a de sonhos. Nas perdas colossais deste caminho percorrido, a crença na razão de uma emoção foi se esvaindo em um nada, uma casca oca quebrando-se para apenas virar palavras ao vento sem norte, rumo ao esquecimento do mundo das indiferenças crassas.

Não se reconstrói o tempo perdido consumado a dilacerações de enfermos amores corrompidos por intrigas internas e conturbações. Criadas a partir de factoides compostas de meias verdades e outra parte de fantasias requentadas por piedade disfarçada de fantasias, nosso enredo é no final das contas, a mais bela mentira que tive o prazer de viver nestes tempos. Entre Todos os Desgostos, nosso sentimento foi o mais vistoso, a coroação plena de um império formado a voltas de dissimuladas promessas.

Apesar dos pesares aqui supracitados, não sou acometido pelo sentimento do remorso que geralmente toma conta neste caso individual amor. Por mais nocivo que aparentemente ele foi, é causador de um milagre do renascimento, da velha, porem experiente e sábia criatividade de florescer outros sentimentos para além do compreendimento racional e previsível. De alguma forma, sou grato por ter me tornado novamente humano, em todos os aspectos falhos e virtuosos.

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