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Poesia

domingo, 23 de junho de 2013

O Trágico Bobo



O bobo-da-corte ali estava fazendo seu papel de pirado sem nexo junto ao rei e seus asseclas bajuladores. Um belo papel este ser representava, entretendo todos que viviam no feudo do governante, alegrando com suas trapalhadas e peraltices a quem por ventura podia aparecer frente ao seu senhor e demonstrar com arte criativa os desígnios e as características peculiares do reino. Ele cumpria uma função especifica dentro da corte, era dele a função de transmitir alegria para quem rodeia seu senhor, sendo inventivo nas tramas e peças que encena para mostrar a vida como ela é, embora de um jeito cômico e por vezes jocoso, tudo o que ele fazia era fazer determinadas verdades virem a tona.

Tinha autonomia para tecer criticas ao monarca, que mesmo sendo enfeitada pelas brincadeiras ao qual fazia, era o único com a liberdade de criticar a situação que vigorava no estado. Através de cenas teatrais dignas dos melhores peças de comédia, ele ia fazendo comentários ácidos sobre a nobreza corrupta que cercava seu suserano, o jogo de poder marcado pela cobiça e ganancia, apontando com maestria todos os desvios de caráter de quem determinava os rumos do reino e o caráter duvidoso de uma corte disposta a manter o véu das aparências jogando seus súditos a uma miséria desumana e uma ignorância selvagem, um tanto quanto animalesca. Mas sendo o bobo da corte, ele apenas era um louco a quem os poderosos toleravam as insanidades proferidas através de discursos cheios de ironia, indiretas incomodas, graças a uma língua tão afiada quanto à ponta da espada de seu rei, só que sendo visto como um doentio estranho, a maioria das pessoas não levava em consideração o que ele proferia.

Embora cumprisse sua função com dedicação que beirava a perfeição, o bobo ao cair da noite se sentia preso e com uma sensação de vácuo peculiar a aqueles com a maldição da lucidez e de ter a noção do funcionamento da ordem que vigorava em seu tempo. Tinha autonomia para falar o que pensava e sentia, só que a loucura que tanto diziam ser sua característica, nada mais era que apenas um personagem encenado, nestas contradições humanas, o bobo apresentava enredos cômicos e divertidos, mas a sua história era uma tragédia épica. Amputado de qualquer toque por semelhante, internamente estava consumido em farelos de pó, a alma quebrantada em partículas mínimas. Queria sentir-se amado, ter compreensão, afeto e poder sentir que de fato, poderia ter um bem-querer ao qual poderia contar como porto seguro nas horas mais ingloriosas, alguém em quem lhe desse abrigo em tempos negros. Mas bobos servem apenas como alegoria de peças, não passam de entretenimento, a liberdade de expressão é uma maldição que o afastava da humanidade, a sinceridade traz consigo verdades, e certas verdades ferem mais do que adagas afiadas.

No meio deles, a insanidade que taxavam sobre ele era incorreta, ao redor de tantos idiotas que seguiam como gado para abate na corte, ele era o único realmente lúcido. Partindo da retórica que uma mentira contada mil vezes passa a ser uma verdade, a falsidade do discurso de que o bobo era louco tornou-se senso comum, o dom de pensar por si própria fez dele um pária entre os seus, ter opinião divergente deste senso comum retrógrado naqueles dias, assim como atualmente, o afastava dos outros, pois revelava as dores da humanidade e geralmente os homens preferem fazer-se de cegos perante a realidade violenta e repressiva. Optam por alienar-se em distrações inúteis e em brincadeiras sem sentido e nisso consistia o trabalho de um bobo da corte, mostrar as verdades de um antigo regime sem escrúpulos, com alicerces podres que estavam condenados a decadência de egos, com ausência de atos éticos e infestados por ações malignas de teor narcisista e egocêntrica.

Então podia ser ouvir os sussurros desesperadores na calada da noite no castelo, vindos do quarto decaído do bobo. Nos pesadelos que infestavam sua mente, o bobo sofria privado dos sonhos, atormentado pela solidão em meio a tantos seres parecidos e ao mesmo tempo tão diferentes dele, era aterrorizado por fantasmas opressores de sonhos e vontades. A bem da verdade, apesar da máscara e do papel divertido que lhe encarregavam, era o súdito mais desgraçado e infeliz até o além-mar. Este era o preço que pagava por ter desnudado o véu e ter se tornado esclarecido e ter a noção da frieza cruel do seu corrompido ambiente. Este enfim era o fardo que iria carregar até o fim dos dias, a liberdade da palavra determinava a prisão dos seus amores, destino cruel dos bobos.

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