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Poesia

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Na Origem Das Coisas



Tinha se cansado fartamente dos fins para que ainda mantinha algum vislumbre de melhora em sua fatídica situação. Perdera qualquer motivação e vontade para crer em algo novo, a repetição de situações desgostosas acumulava-se aos montes, e aos poucos a sua bola de neve de tormentas ia tornando-se uma avalanche voraz engolindo por inteiro suas fracas capacidades de reação, aprisionando-se em suas divagações que tanto o feriam mortalmente. Já não sabia realmente a definição de ego ou de autopreservação, foi privado dos instintos de defesa de si mesmo, expôs-se a execração publica após devanear sobre seus perigosos sonhos, estes eram temíveis para certos senhores de si.

Ficava então por ai, questionando seus próprios motivos por ainda persistir em certas jornadas desastradas, todas sempre tendiam a terminar no mesmo trágico fim, sendo ele designado a encenar o papel de cristo neste enredo tragicômico. Ocasionalmente pensava estar apenas desempenhando seu papel destinado a empenhar eternamente, o de cordeiro sendo oferecido ao sacrifico, tentavam convencer que seu sangue e suas chagas seriam um custo para o bem maior, oras, o que seria mais heroico do que privar-se de sua paz e emoções para aplacar o sofrimento e os infortúnios de outro semelhante? Embora isto já o deixasse farto, viver a mesma história apenas trocando nomes aqui e acolá, adaptações a cenários e ambientes, no fim das contas isto só o nauseava ainda mais.

A farsa cotidiana ia dando contornos vivos dos pobres causos, escapando entre seus dedos as possibilidades de alguma vivencia que contemplasse ao menos uma parte das suas aspirações e metas. Imaginava e formulava as mais tresloucadas teorias sobre meios com os quais pudesse reverter e mudar o repetitivo ciclo de fracassos colossais a cada nova jornada em que se aventurava. Nada mais motivador do espirito humano do que ares desconhecidos ou caminhos ainda a serem desbravados e percorridos, a cada inesperado empreendimento ele ignorava as possibilidades do fracasso ou das forças contrárias a ele, era um tolo sonhador, o ingênuo crente naquilo que se pressupõem e designam como amor.

Muitos o tomavam por um transtornado excêntrico, apenas algo com o que ouvir alguma história mirabolante, dar algumas risadas e deixa-lo ali, na sarjeta murmurando verdades para aqueles que jamais compreenderam seus motivos e ideias. Praguejava sobre suas causas perdidas, destilando com eloquência os motivos de sua insanidade, na retórica impecável que lhe era peculiar ia demonstrando as causas da derrocada de outrora edificantes paixões as quais repetitivamente se metamorfoseavam em negros amores. A velha receita cronológica de erros, incapacidades, culpa e condenação por erros que jamais cometera entrava novamente na ribalta.

Ao fim de tudo, era a sua crença em um encerramento diferente a cada nova jornada que o diferenciava do todo, era à exceção da regra, a fuga deste senso comum redundante alastrado como praga pela maioria dos seus semelhantes. Mantinha então esta confiança, que sobre todos estes descasos, algo o acabaria lhe dando uma grata surpresa, traria para si e encontraria um olhar peculiar que convergiria com suas concepções de ideal, em que o levaria para a diversão infantil na origem de todas as coisas, sejam elas ditas, feitas passadas ou que ainda serão criadas nestes vãos de nascimento.

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