Ensaios

Poesia

domingo, 21 de abril de 2013

Sábio Taciturno



Vivia relativizando tudo, sempre expondo os poréns de qualquer pensamento e suas exceções, buscava em cada uma delas outros pontos de vista para compreender os motivos que por ventura acabaram levando outros a agirem de forma antagônica a sua. Embora ele mesmo agisse fugindo do senso comum na maior parte do tempo, lhe causava uma boa dose de espanto e surpresa quando percebia que os outros acabavam se enveredando pela mesma rota que ele costumava seguir, encontrar outros caminhantes errantes por estas estradas desertas as quais usava como rota de fuga de certas rotinas ou de situações digamos, normais, ainda era um momento de rara ocasião.

Ia percebendo certas semelhanças entre ele e estes andarilhos que encontrava pelo caminho, singularidades acabando por fugir a regra, certos aspectos singulares de ter algo encrustado na alma. Escapando destas mesmices moribundas do que taxavam por “normal” ou até digamos ser o “correto” no modo de viver, ver, e sentir as coisas, eram estes passos específicos e o traçado com o qual ele e estes andarilhos tinham como sentido ao norte individual de cada um era o que os unia em determinadas jornadas por perguntas e não por respostas. Conseguir obter as perguntas corretas nas situações precisas tende a ser um fardo muito mais pesado de se lidar do que alcançar respostas, pois em certa medida, respostas podem se tornar dúbias e vazias, voltando à estaca do nauseante senso comum.

Seguia então ao lado destes andarilhos, compartilhando vagas ideias, concepções e formulações para a verdadeira pergunta ao qual deveriam fazer a si e não a outrem, achava que expondo e coletivizando suas acepções e teorias com estes companheiros momentâneos da via conseguiria arrebatar algum destes para a sua própria causa. Reconfortava-se em saber que sua espécie não estava extinguindo-se, parecia que apesar de ainda serem poucos os seres que andavam pelos mesmos trilhos, graças ao dom da comunicação e do uso da retórica da razão e de épicas justas em busca do justo, seus semelhantes iam surgindo ao longo do percurso. Mesmo que estes, pouco tempo ficassem ao seu lado, as breves situações as quais vivenciavam juntos faziam os detalhes minuciosos desta ocasião únicos e indivisíveis.

Só que novamente, era a uma solidão contemplativa desconfortável, ficando por ali, desoladamente andando em ciclos viciosos e mesmo percebendo as repetições ao qual acabava sendo submetido, exasperava-se. Tinha uma plena consciência da situação em que estava inserido, e isto o atormentava ainda mais, sua lucidez perante aos fatos era uma maldição que o excesso de conhecimento e sabedoria absorvida lhe causava, e por vezes via-se desejando ardorosamente alienação e ignorância em diversos aspectos, chegando a imaginar que talvez esta fosse uma dadiva dada aos imbecis, um presente concedido pelos deuses para amenizar a falta de senso critico.

Seguia então novamente rumo ao norte especificado em sua bussola pessoal, aquilo em que seu cerne concentrava o que tinha de mais puro. Parecia que finalmente, a passos lentos e inconsistentes é verdade, estava conseguindo fazer-se entender as vistas alheias, e os fazendo ver a sua causa como necessária e fundamental não só para ele, mas para o que estava compreendido e inserido no seu mundo, que mesmo sendo único e diferenciado, acabava por fazer inúmeras intersecções com variadas dimensões alheias. Marcava assim seus passos o sábio taciturno, e ia por estes rascunhando sobre peculiares amores, fraternas amizades, na excêntrica ideia de ainda não ter almejado a pergunta exata a ser descrita.

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